domingo, 10 de janeiro de 2010

Aladin e Habermas por um mundo ideal


Para que serve uma teoria? Existe de fato uma teoria de RI? Se não, é possível que um dia ela exista? Martin Wight nos dirá que não podemos nem ao menos falar em uma teoria internacional, visto que a política é uma atividade exclusiva dos Estados dentro de suas fronteiras nacionais. Os realistas nos explicarão de forma cientificamente “comprovada” a realidade. Os liberais tentarão ser um pouco mais otimistas. Já os pós-modernistas tentarão desconstruir os paradigmas dominantes, e tentarão nos salvar das amarras da cientificidade, eles pregarão que as teorias constroem a realidade, e concordarão com a famosa frase de Cox “toda teoria é feita para algo ou para alguém”.
Chegamos à conclusão que temos que dar razão aos pós-estruturalistas, toda teoria é normativa, ou seja, todas elas impõem valores que devem ser aceitáveis e induzem padrões de comportamento que modelam a realidade, dessa forma também podemos concordar com os realistas já que, por ser dominante, a sua teoria é capaz de explicar a realidade porque a cria. Porém temos que desacreditá-los por serem demasiado pretensiosos, e advogarem a atemporalidade de seus pressupostos e definirem padrões fixos de comportamento aos seres humanos, além é claro de pretenderem nos fazer acreditar que a anarquia é inerente ao sistema internacional. De fato, Morgenthau, Carr, Waltz, Herz e companhia, foram capazes de criar uma forma de pensamento que nos pareceu e ainda nos parece bastante coesa e coerente, porém isso pode mudar se nas salas de aula, e nos gabinetes de política externa, homens bons, comprometidos e atentos possam compreender que o mundo ideal é mais possível do que acreditavam os criadores de Aladin.
A Teoria Crítica introduzia pelo filósofo alemão Jurgen Habermas (foto da esquerda) varreu as ciências sociais em 1950, e suas conseqüências foram sentidas nas teorias de RI. Esse incrível pensador acreditava que o projeto iluminista havia sido corrompido a própria razão, colocando a ciência acima de qualquer questionamento e submetendo a realidade a teoria, criou-se assim uma hierarquia entre a prática e o saber, no qual o último se tornou o ditador incontestável que legitimou as formas de dominação responsáveis por inúmeras atrocidades. Para Habermas a teoria deveria reconhecer seus próprios limites, ou seja, os limites da razão, da nossa capacidade de analisar objetivamente a realidade e segundo toda teoria deve assumir seu caráter temporal e contextual, e não como verdade eterna. Dessa forma o filósofo alemão pode nos dar esperança, além disso, ele nos ensinou a desconfiar de todos aqueles que advogam a legitimidade e imutabilidade das relações de poder, ele colocou a ética no centro dos novos debates e abriu as portas para traçarmos um novo discurso, mais igualitário e justo baseado no direito positivo. Aprendemos que somos induzidos a ler Maquiavel, Hobbes e Tucídides sob uma ótica limitada. Habermas deu apenas os primeiros passos, Cox, Linklater, Ashley, Onuf, Wendt, Shapiro, Weber dentre outros diversos buscam trilhar um caminho semelhante, devemos prestar atenção nesses novos debates, sem deixar é claro de desconfiar de toda a forma de busca por um saber incontestável. Sabemos que vivemos em uma realidade ruim, sabemos também que poderia ser pior, contudo não podemos deixar que esse argumento nos impeça de buscar novas explicações e novas soluções para os velhos problemas, como o da guerra, da injustiça, da pobreza. Vivemos em um processo continuo de buscas, mudanças e descobertas que as teorias tradicionais ignoram por pura comodidade. A história, não acabou nem acabará ela é construída todos os dias pelos discursos e atividades da raça humana. As teorias de RI refletem, portanto, esse aspecto da realidade social, ela é plural, descontínua e heterogênea, que guarda aspectos de semelhança que as torna uma ciência independente, pobres são os críticos incapazes de perceber a qualidade acadêmica dessa variedade.

Podemos concluir, com toda a humildade da falta de nosso conhecimento, que não precisamos acredita, nem aceitar e muito menos nos submeter às premissas realistas, nos trará mais frutos investir nos temas empolgantes que nos oferecem as teorias alternativas. Mesmo correndo o risco de sermos chamados de idealistas ou utópicos, devemos resistir, pois como já dizia Marx: “Não importa que estejamos sendo levados pela corrente, mas sim, que estamos nadando contra ela.


Referências:
NOGUERA, J; MESSARI, N. Teoria das Relações Internacionais. Rio de Janeiro: Elsevier, 2005.

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